

Em 2026, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) aprovou novas regras que autorizam o cultivo controlado de cannabis para fins medicinais, farmacêuticos e de pesquisas científicas.
Essa regulamentação é um marco histórico para o setor no país, que tem potencial de movimentar R$ 1 bilhão ainda em 2026 e mais de R$ 9,5 bilhões até 2030, de acordo com a consultoria especializada Kaya Mind.
Seguindo uma tendência internacional de crescimento impulsionado pela legalização em mais países, novos estudos médicos e busca por terapias alternativas, esse mercado se apresenta como promissor para os próximos anos.
Mesmo antes da nova regulação, mais de 870 mil brasileiros já utilizavam produtos à base de cannabis em 2025, 30% a mais do que em 2024, como aponta o Anuário da Cannabis Medicinal 2025.
As novas regulamentações reclassificam a cannabis de tarja preta a vermelha e flexibilizam seu uso medicinal, ampliando o acesso para tratamento de doenças debilitantes.
Além disso, a Anvisa liberou a exportação de insumos farmacêuticos ativos (IFA) produzidos no Brasil para fabricantes de outros países, o que pode reduzir os preços do produto final ao consumidor.
Por isso, a discussão sobre cannabis medicinal no Brasil, além das questões de saúde, compreende aspectos como competência local industrial, autonomia tecnológica e de soberania nacional.
Logo, essas medidas possibilitaram a criação de uma indústria nacional e tendem a incentivar investimentos internos e externos, aumentar a geração de empregos e o arrecadamento de impostos e, consequentemente, potencializar o interesse de médicos em prescrever e de pacientes em utilizar os produtos derivados da planta.
Com estas novas determinações da Anvisa, ampliam-se as oportunidades de evolução de áreas como agritechs, indústria química e farmacêutica, análise de dados e tecnologia aplicada ao setor, serviços regulatórios e de validação e, principalmente, Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I).
O mercado de cannabis medicinal é estratégico para o Brasil, tendo em vista que contribui para ampliar o acesso a tratamentos seguros, reduzir a pressão de custos associados à importação, estimular pesquisa, ensaios clínicos, biotecnologia e desenvolvimento de novas formulações, bem como criar capacidade local em cultivo regulado, produção farmacêutica, laboratórios e tecnologia.
Além disso, permite a redução da dependência externa e aumenta a resiliência de abastecimento em um segmento emergente.
No entanto, o desenvolvimento de uma indústria nacional do insumo depende, essencialmente, de inovação, porque exige a estruturação de pesquisas, novos projetos, patentes e protótipos, capacitação de mão de obra, aquisição de equipamentos e tecnologias e de outros fatores que sustentam a base de um novo setor.
Esse, contudo, não é um processo que gera receita de imediato.
Os benefícios atrelados à inovação são registrados somente após a finalização de todas as etapas de P&D, que podem durar meses ou anos consumindo recursos.
Assim, um dos gargalos na capacidade de inovar diz respeito à não inclusão, por diferentes razões, dos projetos relacionados à cannabis medicinalno orçamento das empresas, o que limita a verba destinada a estas iniciativas.
Contudo, a inovação está diretamente ligada a receita, margem e expansão e é apenas com sua aplicação que os setores habilitarão as ferramentas necessárias para conquistar mercado.
Nesse sentido, apenas a regulamentação da Anvisa não estabelece uma base sólida para a estruturação dessa indústria.
Essa lacuna impacta as companhias que buscam adentrar o mercado, que enfrentarão uma competitividade maior das big pharmas ou empresas de maior porte com capital disponível para investimentos milionários.
Consequentemente, observa-se no setor um movimento de alianças entre grandes players e empresas mais especializadas, justamente pela falta de incentivos que permitam às pequenas empresas competir sozinhas.
Em paralelo, devido ao caráter de risco e à baixa base de pesquisas nacionais no segmento, até mesmo empresas de grande porte dependem de recursos externos, seja por investimentos ou financiamento público.
E é nesta questão que os incentivos à inovação têm o potencial de serem protagonistas.
A Lei do Bem, por exemplo, engloba etapas básicas de pesquisas genéticas, elaboração de formulações e testes laboratoriais, até validações em escala piloto, assegurando, também, projetos que ao final resultam em insucesso.
A Lei do Bem, por exemplo, engloba etapas básicas de pesquisas genéticas, elaboração de formulações e testes laboratoriais, até validações em escala piloto, assegurando, também, projetos que ao final resultam em insucesso.
Essa política pode reduzir o custo líquido dos dispêndios elegíveis de PD&I, possibilitando uma diminuição na disparidade com o mercado global de cannabis medicinal e posicionando o país como uma potência, considerando a capacidade agroindustrial e a qualidade científica das pesquisas já desenvolvidas.
Com a utilização de mecanismos de fomento à inovação, o risco financeiro é compartilhado ao longo do projeto, e o retorno passa a ser avaliado com uma melhor relação entre risco e capital empregado.
Além disso, com a obtenção de financiamentos públicos e uma estrutura de funding de qualidade, os prazos de carência e amortização se tornam equivalentes ao ciclo de maturação do projeto.
Esses incentivos criam condições para que projetos tecnologicamente relevantes possam existir, melhorando a viabilidade financeira de projetos relevantes que enfrentam o desafio de equilibrar custo de capital, risco tecnológico e longos ciclos de desenvolvimento.
Portanto, os R$ 9,5 bilhões projetados para 2030 dependem, além da regulamentação, de que empresas nacionais, e não somente as big pharmas e grupos estrangeiros com capital disponível, tenham acesso a mecanismos de fomento que viabilizem pesquisa, ensaios clínicos e capacidade produtiva própria.
Sem instrumentos de incentivo à inovação que reduzam o risco do investimento e se equiparem com o capital estrangeiro, o país corre o risco de repetir a mesma dependência externa que busca superar em outras áreas.
Sendo assim, financiar a inovação, industrialização e soberania em saúde é fundamental para fomentar o crescimento e consolidação do mercado de cannabis medicinal no Brasil.
Por Laís Leoncini, engenheira química e Gerente de Negócios do FI Group by EPSA.
Fonte: Exame.

