

A educação é um dos pilares fundamentais para sustentar o desenvolvimento econômico e social, funcionando como base para a formação de competências que alimentam a inovação e a competitividade. Este texto propõe uma análise crítica dos indicadores do Índice Global de Inovação (IGI), utilizando-os como ferramenta para discutir aspectos estruturais que condicionam a capacidade inovadora de um país. Mais do que apresentar números, o objetivo é compreender como esses indicadores expõem os fundamentos que sustentam essa capacidade, desde a forma como os recursos educacionais são convertidos em oportunidades reais de aprendizagem até os mecanismos que garantem a formação de competências complexas. Essa análise busca evidenciar como a qualidade da educação, aliada à eficiência do investimento, molda a estrutura do capital humano, elemento que não apenas influencia o desempenho econômico imediato, mas define a aptidão de uma nação para gerar conhecimento, adaptar-se a mudanças tecnológicas e criar soluções que impulsionem o desenvolvimento de longo prazo.
O esforço financeiro destinado à educação é um ponto de partida relevante, pois revela a prioridade atribuída à formação de capital humano. Países líderes em inovação, como Coreia do Sul, Suíça e Israel, investem entre 5% e 6% do PIB em educação, associando esse volume a políticas eficazes de qualidade. A Coreia do Sul, por exemplo, mantém uma das maiores taxas de matrícula no ensino superior do mundo e figura entre os primeiros colocados em rankings internacionais de aprendizagem, como o PISA. Israel, com gasto educacional superior a 6% do PIB, reforça sua estratégia de formação de capital humano altamente qualificado, essencial para manter sua liderança em setores tecnológicos e no ecossistema de startups. Esses exemplos evidenciam que o investimento em educação não apenas amplia o acesso, mas fortalece a capacidade de gerar conhecimento e transformá-lo em inovação.
No Brasil, esse indicador aparece como um dos pontos fortes no IGI: o país figura na 23ª posição global em proporção do PIB destinada à educação, um resultado que demonstra compromisso com a área. No entanto, esse esforço não se traduz de forma consistente em resultados de aprendizagem. Embora a expectativa de vida escolar tenha avançado nas últimas décadas, aproximando-se da média da OCDE, esse tempo prolongado nem
sempre garante que os estudantes concluam as etapas previstas ou adquiram as competências esperadas. Em muitos casos, a trajetória escolar é marcada por interrupções e repetências, o que sugere que a permanência, por si só, não assegura experiências formativas capazes de preparar os jovens para desafios mais complexos. Essa fragilidade é ainda mais evidente quando se consideram as desigualdades regionais. Enquanto estados do Sul e Sudeste apresentam taxas mais elevadas de progressão escolar, regiões Norte e Nordeste enfrentam obstáculos estruturais que comprometem a continuidade e a qualidade da aprendizagem.
Outro aspecto que ajuda a compreender essa dinâmica é a intensidade do investimento por aluno. Quando os recursos são diluídos, as condições de ensino tendem a ser menos favoráveis, limitando a oferta de infraestrutura adequada e oportunidades pedagógicas mais diversificadas. No Brasil, a posição nesse indicador é 43ª, o que indica espaço para aprimorar a distribuição dos recursos. Essa situação não significa ausência total de qualidade, mas aponta para dificuldades em garantir que os investimentos cheguem de forma equilibrada às escolas, especialmente àquelas que atendem populações mais vulneráveis, onde a dependência da escola como fator de inclusão social é maior. A relação entre o número de alunos e professores também influencia diretamente a qualidade do ensino. Turmas muito numerosas reduzem a possibilidade de acompanhamento mais próximo, tornando o processo de ensino menos dinâmico e dificultando ajustes às necessidades individuais. No Brasil, a posição 73ª nesse indicador reforça que esse é um desafio estrutural. Embora não seja um fator isolado, essa proporção elevada tende a limitar práticas pedagógicas mais interativas e a reduzir o espaço para abordagens que estimulem maior participação dos estudantes.
Essas condições se refletem nos resultados de aprendizagem, medidos por avaliações internacionais que buscam aferir não apenas a retenção de conteúdos, mas a capacidade de aplicá-los em situações práticas. No PISA 2022, o Brasil apresentou médias de 384 pontos em matemática, 410 em leitura e 403 em ciências, contra aproximadamente 480 pontos na média da OCDE. Apenas 27% dos estudantes brasileiros atingiram o nível mínimo de proficiência em matemática, enquanto na OCDE esse percentual é de 69%. Em leitura, 50% dos brasileiros alcançaram esse nível (OCDE: 74%), e em ciências, 45% (OCDE: 76%). O alto desempenho é raro: apenas 1% dos estudantes brasileiros atingiu os níveis 5 ou 6 em matemática (OCDE: 9%). Esses números sugerem que, apesar dos avanços no acesso, a escola brasileira ainda enfrenta dificuldades para garantir aprendizagens que preparem os jovens para um mundo em constante transformação. Não por acaso, o Brasil ocupa a 64ª posição no indicador de desempenho educacional do IGI, reforçando que a qualidade da aprendizagem é um dos principais gargalos para a formação de capital humano competitivo. Quando se observa esse conjunto de fatores, fica claro que a educação não é apenas uma política social, mas um ativo estratégico para o desenvolvimento econômico sustentado. Investir mais é importante, mas investir melhor é determinante. Isso envolve não apenas ampliar recursos, mas direcioná-los para práticas que assegurem qualidade, reduzam desigualdades e fortaleçam a formação de competências que permitam aos indivíduos interpretar problemas e propor soluções. Em última análise, a capacidade de um país de transformar conhecimento em inovação depende da solidez de sua base educacional. É nela que se constrói o capital humano capaz de impulsionar crescimento, gerar oportunidades e sustentar avanços tecnológicos que beneficiem toda a sociedade.

